Nos corredores do Palácio dos Despachos, o clima é de tensão. O governador Fábio Mitidieri (PSD) se vê diante do que o saudoso Marcelo Déda, com sua erudição habitual, chamaria de “A escolha de Sofia”. Na obra ficcional, a protagonista é forçada a escolher qual dos dois filhos sobreviverá. Na realpolitik sergipana, Mitidieri precisa decidir qual aliado sacrificar para garantir sua própria sobrevivência política em 2026: André Moura (União) ou Alessandro Vieira (MDB).
Até pouco tempo, o cenário parecia desenhado: uma chapa dos sonhos com a força política de André e a retórica de Alessandro. Mas o sonho virou pesadelo. As recentes declarações de Alessandro Vieira, classificando uma aliança com André como “incompatível” e reavivando denúncias antigas, implodiram a ponte que unia os dois polos do governismo. A reação foi imediata: André foi a público, cobrou respeito à sua família e colocou o governador contra a parede. Fábio, por sua vez, não titubeou e prestou solidariedade a André, isolando ainda mais o senador da “moralidade”.
A “Escolha de Sofia” de Fábio não permite erros. Se mantiver Alessandro e rifar André, o governador comete suicídio político. André Moura não é apenas um nome; ele comanda uma máquina municipalista invejável, com dezenas de prefeitos e uma capacidade de articulação que, se migrar para a oposição, pode ressuscitar o grupo de Valmir de Francisquinho e Eduardo Amorim. Imagine André Moura, com toda sua estrutura, operando contra o governo. É um risco que Fábio não pode correr.
Por outro lado, há um desejo latente no governador: ter o presidente Lula em seu palanque. Até agora, a “chapa fechada” impedia a entrada do PT. Com o “tiro no pé” de Alessandro, abriu-se uma avenida de oportunidades.
A matemática política aponta para uma solução óbvia, ainda que dolorosa para alguns: manter André Moura e convocar Rogério Carvalho para a segunda vaga ao Senado.
Essa jogada mataria dois coelhos com uma cajadada só:
1. Segura o Centro e a Direita: Mantém André Moura e sua base fiel no governo, impedindo o fortal1ecimento da oposição.
2. Traz a Esquerda: Ao dar a vaga a Rogério, Fábio garante o PT oficial e, consequentemente, o tão sonhado palanque de Lula, blindando-se contra uma candidatura própria da esquerda que poderia levar a eleição para um perigoso segundo turno.
Nesse cenário, Alessandro Vieira seria a “vítima” da escolha de Sofia. Isolado pelos próprios ataques e sem a confiança do núcleo duro do governo, restaria ao senador buscar uma candidatura avulsa ou tentar a sorte em outra raia, longe da máquina governista que ele mesmo ajudou a desestabilizar.
Fábio Mitidieri é um político pragmático. Entre a ética discursiva de Alessandro e a aritmética eleitoral de André somada à força popular de Lula (via Rogério), a escolha parece lógica. Resta saber se o governador terá a frieza de executar o movimento que Déda, lá atrás, ensinou ser muitas vezes inevitável na política.

